1. Visão Geral
Por que organizar Circuitos Econômicos Solidários agora?
Os circuitos econômicos do capital produtivo, comercial e financeiro acumulam a maior parte dos valores produzidos pela economia solidária. Isso ocorre porque produtores e consumidores solidários permanecem dependentes, em grande medida, dos circuitos capitalistas para comprar, vender, trocar e financiar suas atividades cotidianas. Cada compra num supermercado, cada empréstimo bancário, cada plataforma de entrega realiza lucro para o capital — não realiza excedentes para a comunidade que produziu esse valor ou o adquiriu.
Com a organização de Circuitos Econômicos Solidários (CES), parte dos valores que antes era realizada como lucro capitalista pode ser acumulada em fundos solidários autogestionados, financiando a libertação progressiva de forças produtivas, meios de intercâmbio e crédito nas comunidades locais. Quando uma comunidade organiza um Empório (um mercado cooperativo, por exemplo) e um Fundo Solidário, ela não cria uma alternativa paralela ao sistema — ela intervém diretamente nos fluxos de valor que antes alimentavam o capital.
Este curso parte de uma constatação: a contradição do capital se aprofunda. A automação, a inteligência artificial e a lógica de uberização do trabalho intensificam a crise de realização do valor, ampliam a precariedade, o desemprego estrutural e aumentam o endividamento das famílias trabalhadoras. Esse contexto não fecha o futuro — ele abre fendas. As comunidades que aprenderem a identificar e ocupar essas fendas com circuitos solidários organizados terão instrumentos reais para enfrentar a transição atual.
Nesta edição de 2026, o curso incorpora a IA Sol, que projeta circuitos econômicos com dados do IBGE para o território de cada núcleo participante. Isso transforma o processo: os participantes chegam ao módulo com dados reais do seu território já processados, podendo concentrar as energias na análise crítica, na projetação coletiva e — principalmente — na organização dos núcleos da Associação Comunir para a incubação dos circuitos projetados.
2. Público
Para quem é este curso?
O curso é dirigido a pessoas engajadas na construção de alternativas econômicas e sociais, em particular as que atuam ou estão em processo de organização nos núcleos da Associação Comunir:
O curso parte dos circuitos do capital na elaboração de Marx para mostrar que os circuitos solidários não são reformismo ingênuo, mas uma operação concreta nesses mesmos circuitos — desviando fluxos de valor da acumulação capitalista, aprofundada pela Teoria da Dependência, para a acumulação solidária comunitária desenvolvida na Economia de Libertação.
3. Programa
Módulos do Curso
O curso se desenvolve em cinco encontros online ao vivo, cada um integrado a atividades de estudo, projetação e prática realizadas no intervalo entre encontros. Essa estrutura transforma cada encontro num ciclo completo: preparação, síntese coletiva e aprofundamento.
Circuitos Econômicos do Capital e Dominação Econômica
01 de junho de 2026 · Segunda-feira · 19h–21h
- Os circuitos do capital produtivo, comercial e financeiro na elaboração de Karl Marx
- Valor econômico: produção, circulação, consumo e realização do valor de uso e do valor de troca
- Exploração do trabalho, expropriação no intercâmbio, espoliação no crédito, exclusão no consumo e degradação ambiental
- Termos de intercâmbio e dependência econômica na integração do mercado local e mundial
- Capitalismo de plataforma, uberização e precarização do trabalho
- Inteligência Artificial, robótica, desemprego, mais-valia extraordinária e aprofundamento da crise de realização do valor
- Endividamento e Renda Básica Universal na reprodução dos circuitos econômicos do capital
"O primeiro encontro cumpre uma função estratégica que vai além da exposição teórica: estabelece o quadro de economia política a partir do qual todo o curso se desenvolve. Os circuitos do capital são compreendidos a partir de Marx, e a crise de realização do valor — agravada pela atual revolução tecnológica — é apresentada não como disfunção a corrigir, mas como contradição estrutural que exige superação. Os circuitos solidários aparecem, assim, não como saída reformista, mas como intervenção nos mesmos mecanismos que Marx descreveu com precisão: a exploração no trabalho, a expropriação no intercâmbio comercial, a espoliação pelo crédito.
Importância no contexto atual: A crise de realização do valor se aprofunda com a automação e a IA. O desemprego estrutural e o endividamento crescente não são efeitos colaterais — são contradições do próprio sistema. Compreender esses circuitos com dados reais do próprio território, via IA Sol, transforma a análise abstrata em diagnóstico concreto e acionável. O encontro fecha com a pergunta que atravessará todo o curso: onde, exatamente, o valor produzido e/ou realizado pelas nossas comunidades vaza para os circuitos do capital como lucro — e o que seria necessário para interceptar esse fluxo?
Circuitos Econômicos Solidários e Libertação Econômica
08 de junho de 2026 · Segunda-feira · 19h–21h
- Circuitos econômicos solidários: integrando investimento, produção, intercâmbio, crédito e consumo sustentáveis na economia de libertação
- Realização do valor e interpenetração dos circuitos capitalistas e solidários
- Enfrentando a acumulação do capital sobre valores produzidos na economia solidária
- Realizando a acumulação solidária sobre valores produzidos nos circuitos do capital
- Plataformas solidárias para circuitos econômicos e libertação de forças econômicas
- IA, robótica, redução da jornada de trabalho, mais-valia extraordinária e transição sistêmica
- Sistemas de intercâmbio econômico locais e globais e transição para a economia comunal
- Projetação coletiva ao vivo: esboço do circuito solidário de cada núcleo
Se o primeiro módulo foi o diagnóstico, este é a resposta. A Economia de Libertação se pergunta, a partir de Marx, como as comunidades podem disputar no interior dos próprios circuitos do capital os valores socialmente produzidos. O módulo mostra que os circuitos solidários não operam ao lado do sistema, mas dentro dele, desviando fluxos de valor da acumulação capitalista para a acumulação comunitária e impedindo que valores produzidos na economia solidária sejam acumulados nos circuitos do capital. O Empório solidário não é uma cooperativa simpática: é um instrumento de captura da margem comercial que antes ia para o supermercado. O Fundo Solidário não é uma caixinha comunitária: é a expressão institucional da acumulação do excedente solidário.
Importância no contexto atual: A automação e a IA criam uma oportunidade contraditória: ao mesmo tempo que aprofundam a crise do trabalho, tornam possível a redução da jornada e a liberação de tempo social para a autogestão. Circuitos solidários digitalmente integrados, com plataformas de intercâmbio e inteligência territorial, permitem que essa transição não seja apenas resistência, mas construção ativa de outra economia. A segunda metade deste encontro é dedicada a uma aproximação inicial do diagnóstico dos territórios: com as ferramentas de Solidarius apresenta-se o contexto da economia solidária mapeada nos territórios pelo Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária, desenvolvido pela Secretaria Nacional de Economia Solidária; e com a IA Sol são apresentadas as demandas de consumo para os diferentes territórios, com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE.
Metodologias, IA Sol e Plataforma Solidarius para a Organização de CES
15 de junho de 2026 · Segunda-feira · 19h–21h
- Como conectar consumo, intercâmbio, produção e crédito: mapeamento de demandas e ofertas
- Catálogos de compras, trocas e doações: lógica e operação
- Intercâmbios monetários e não-monetários: dinheiro, créditos ou moedas sociais, agradecimentos e blockchain
- Usando a IA Sol para projetar e ajustar CES com dados territoriais
- Módulo de Créditos da Plataforma Solidarius e SIS: intercâmbios econômicos locais e globais
- Fundo Solidário: aportes, créditos não-monetários, votação de projetos e autogestão
- Ferramentas de administração: abrindo contas, gerenciando o Empório, monitorando fluxos
Este é o encontro das ferramentas — mas não num sentido instrumental estreito. Cada ferramenta apresentada aqui é a materialização técnica de um conceito político: o catálogo do Empório é a operacionalização da captura da margem comercial; o módulo de créditos é a alternativa ao banco e aos sistemas de pagamento locais e globais; os créditos não-monetários e a moeda social são a expressão da confiança comunitária como lastro de valor. O encontro é estruturado em dois blocos: o primeiro foca no mapeamento de demandas e ofertas e nos catálogos — acessível a todos os perfis; o segundo aprofunda a IA Sol e a Plataforma Solidarius, para intercâmbios econômicos locais e internacionais. O blockchain com validação comunitária é tratado como infraestrutura explicada: todos precisam compreender sua lógica, não necessariamente sua operacionalização técnica.
Importância no contexto atual:As plataformas digitais solidárias respondem ao capitalismo de plataforma invertendo a direção do fluxo de valor: em vez de extrair dados e margem das comunidades, acumulam valor dentro delas. A IA Sol, ao processar dados do IBGE por território, torna visível o que antes era invisível — o volume de valor que circula numa comunidade e que poderia ser retido por um circuito solidário. Isso transforma a ferramenta em instrumento de consciência econômica territorial.
Refletindo as Práticas: Análise dos Circuitos Projetados e das Intercâmbios Realizados
22 de junho de 2026 · Segunda-feira · 19h–21h
- Apresentação e retroalimentação dos circuitos projetados pelos núcleos
- Avaliação das experiências de compras, trocas e doações realizadas na Plataforma
- Potencialidades e limites dos circuitos projetados: análise coletiva
- Sustentabilidade do Empório: número de famílias, ticket médio e plano de incubação
- Estratégias de incubação: entidade-âncora, calendário e próximos passos
Neste módulo a teoria encontra a experiência concreta dos participantes — não como confirmação, mas como tensão produtiva. Os circuitos projetados são apresentados por cada núcleo num protocolo claro, garantindo tempo para todos e evitando que o encontro se fragmente. A avaliação das trocas realizadas na plataforma usa uma pergunta geradora simples: o que fluiu, o que travou, o que surpreendeu? Essa pergunta nunca produz respostas óbvias — ela revela os obstáculos reais que a teoria não antecipa e que a incubação precisará enfrentar.
Importância no contexto atual: A análise coletiva dos circuitos projetados com dados reais do território é um exercício inédito que esta edição do curso torna possível graças à IA Sol. Ao ver o potencial de desvio de valor calculado para o seu bairro, município ou território, os participantes deixam de discutir circuitos solidários em abstrato e passam a discutir estratégias concretas de incubação. Isso qualifica o processo que virá depois do curso e fortalece o compromisso dos núcleos com sua realização.
Associação Comunir, Autogestão Comunitária e os Próximos Passos
29 de junho de 2026 · Segunda-feira · 19h–21h
- O caráter econômico, político, social e cultural da autogestão comunitária
- Democracia, divergências, convergências e gestão de conflitos
- O projeto político democrático e popular, socialismo democrático e autogestão comunitária
- Comunir - Associação Solidária de Autogestão Comunitária do Brasil: projeto político, social e estratégico
- Como organizar um CES com o apoio da Associação Comunir
- A importância da construção de uma Rede Brasileira de Circuitos Econômicos Solidários: integração e colaboração
- Encerramento: plano de próximos passos por núcleo
O último encontro é o que transforma o curso em processo. Sem ele, os circuitos projetados correm o risco de ficar nos papéis. Com ele, cada núcleo sai com um plano concreto de incubação e com o enquadramento estratégico necessário para sustentá-lo. O módulo se estrutura em dois movimentos: o primeiro trata da autogestão interna — como tomar decisões coletivas, lidar com conflitos inevitáveis e construir a democracia real no interior do circuito; o segundo amplia o horizonte político e estratégico — os circuitos de cada núcleo não existem isolados, podendo integrar-se a uma Rede Brasileira de CES em construção e à Associação Comunir num projeto claro de transição sistêmica da economia nacional.
Importância no contexto atual:A autogestão comunitária é, ao mesmo tempo, método e horizonte. Como método, é a única forma de garantir que o circuito solidário não reproduza as hierarquias que pretende superar. Como horizonte, é a expressão organizacional de outra forma de vida social — fundada na soberania das comunidades sobre seus próprios processos econômicos. Num momento em que o capitalismo de plataforma centraliza cada vez mais o controle sobre os intercâmbios cotidianos, a autogestão distribuída em rede representa uma aposta estratégica de transição sistêmica para a construção de uma sociedade cada vez mais comunal e solidária.
4. Calendário
Encontros — Junho de 2026
Todos os encontros são realizados às segundas-feiras, das 19h às 21h.
| Data | Módulo | Conteúdo central |
|---|---|---|
| 01/06/2026 | Módulo 1 | Circuitos Econômicos do Capital e Dominação Econômica |
| 08/06/2026 | Módulo 2 | Circuitos Econômicos Solidários e Libertação Econômica |
| 15/06/2026 | Módulo 3 | Metodologias, IA Sol e Plataforma Solidarius para a Organização dos CES |
| 22/06/2026 | Módulo 4 | Refletindo as Práticas: Análise dos Circuitos Projetados e dos Intercâmbios Realizados |
| 29/06/2026 | Módulo 5 | Associação Comunir, Autogestão Comunitária e Próximos Passos |
5. Metodologia
Como o curso funciona
O curso não é uma sequência de aulas expositivas. É um processo de formação em ciclos — cada encontro online ao vivo é o eixo de um ciclo que inclui preparação antes e aprofundamento depois. A teoria entra como lente para analisar dados reais do território, não como etapa separada da prática. A prática começa no primeiro encontro e não termina no quinto.Ciclos integrados
Cada encontro tem uma etapa de preparação prévia (leitura ou tarefa), síntese coletiva presencial e aprofundamento posterior. Teoria e prática são inseparáveis.
IA Sol e dados territoriais
A IA Sol processa dados do IBGE para o território de cada núcleo, tornando visível o volume de valor que poderia ser retido por um circuito solidário local. O diagnóstico parte do concreto.
Projetação coletiva
Cada núcleo projeta, ao longo do curso, o circuito solidário do seu próprio território. O projeto é desenvolvido progressivamente e apresentado para análise coletiva no Módulo 4.
Prática na plataforma
Os participantes realizam intercâmbios reais — compras, trocas e doações — na Plataforma Solidarius durante o curso, gerando experiência concreta para análise coletiva.
Reflexão sobre a prática
O Módulo 4 é inteiramente dedicado à análise do que foi projetado e experienciado. Obstáculos reais, descobertas e ajustes estratégicos emergem do processo vivido pelos próprios participantes.
Produto concreto
Cada núcleo encerra o curso com um projeto de CES revisado, um plano inicial de incubação e um calendário de próximos passos — não apenas conhecimento, mas comprometimento organizado.
Os encontros online ao vivo têm duração de duas horas, com condução participativa. Não há exposição passiva prolongada: os conteúdos teóricos são disponibilizados previamente para leitura ou estudo, liberando o tempo do encontro para debate, projetação coletiva e análise crítica. Os participantes chegam aos encontros com material estudado e, a partir do Módulo 3, com experiências práticas na plataforma para compartilhar.
Ao final do curso, os núcleos que deliberarem pela criação de um CES ingressam na fase de incubação (6 meses), com assessoramento da Associação Comunir. A fase experimental culmina numa assembleia comunitária, que decide pela criação ou não do Circuito Econômico Solidário.
Serão emitidos, pela Associação Comunir e por Solidarius Rede Internacional, certificados de participação para os participantes que cumprirem os critérios de avaliação previstos.
6. Após o Curso
Da formação à incubação
O curso de formação é a porta de entrada de um processo mais longo. Os núcleos que ao final dos cinco encontros deliberarem pela organização de um CES ingressam na fase de incubação, que se desenvolve ao longo de seis meses com assessoramento da Associação Comunir.
Durante a incubação, o circuito opera experimentalmente: os participantes usam a Plataforma Solidarius para realizar compras coletivas, trocas e doações, gerindo o Empório provisório e o Fundo Solidário. O assessoramento cobre dúvidas operacionais, desenvolvimento dos catálogos, integração com fornecedores e aspectos jurídicos da cooperativa.
Ao final dos seis meses, uma assembleia comunitária decide pela criação formal da pessoa jurídica do circuito, que pode ser uma cooperativa de consumo ou a figura que melhor corresponda às especificidades do circuito local. Aprovada a criação, são ativados permanentemente a hospedagem na plataforma, as contas e o fundo do novo circuito, habilitando-o a atuar em rede colaborativa com outros CES no Brasil ou no exterior, tornar-se coproprietário da Plataforma Solidarius e participar ativamente do Sistema de Intercâmbios Solidarius — que funciona experimentalmente desde 2007 — para transações econômicas locais e globais.
7. Inscrições
Como participar e Taxa de Inscrição
As inscrições devem ser realizadas neste formulário: clique aqui.
Associados da Comunir e membros de seus núcleos são isentos de taxa de inscrição.
Não-associados podem escolher entre duas modalidades:
- Inscrição regular — R$ 50,00
- Inscrição solidária — Você estipula o valor com base nas suas capacidades e necessidades e na importância que este curso tem para você. Ao contribuir com um valor maior que a inscrição regular, você subsidia quem não pode pagar pelo curso.
Para ambas as modalidades, o pagamento é feito via Pix para pix@comunir.org
Para dúvidas e informações adicionais, entre em contato pelo e-mail info@comunir.org ou pelos demais canais da Associação Comunir.